
O Flamengo entrou em campo contra o Santos, na Vila Belmiro, pela 29ª rodada do Campeonato Brasileiro, com uma mensagem de protesto contra a proibição das casas de apostas esportivas no Brasil. A frase “Proibir não é proteger” foi estampada na parte central da camisa, onde normalmente fica o patrocinador master do clube. A Betano, que era a parceira do Flamengo, foi proibida de operar no Brasil por conta da Medida Provisória 1.394/2026.
A proibição das casas de apostas trouxe um impacto imediato nos cofres de clubes que já não estavam firmes. Muitos dependiam de um fluxo de recursos que não vinha de bilheteria ou venda de produtos. Essa fonte de dinheiro era fácil de captar e substituía outras receitas que nunca foram desenvolvidas suficientemente pelo mercado futebolístico brasileiro. O governo agiu com uma medida eleitoreira e já se questionada o efeito contrário a elas no resultado das eleições de primeiro turno.
Os clubes adotaram as parcerias com operadores não por escolha estratégica, mas por necessidade prática. Não havia um plano para aumentar a venda de produtos oficiais ou criar assinaturas digitais ou lotar os estádios ou ainda administrar de maneira coerente os bens do clube. Foi mais conveniente aceitar o dinheiro das ‘bets’ do que construir um modelo comercial sólido. Essa comodidade mascarou problemas antigos de gestão e controle de custos. Quando a proibição repentina surgiu, não existia um sistema alternativo pronto para receber esse dinheiro. E agora? Alguns sugeriram parar o campeonato, muitos que negaram para-lo na pandemia.
O dinheiro das casas de apostas funcionava como um salva-vidas financeiro de curto prazo. Ele permitia pagar salários e manter o calendário lotado sem buscar soluções de longo prazo. Em vez de investir em marketing ou fortalecer o relacionamento com torcedores, focava-se em parcerias pontuais. Essa dependência criou uma vulnerabilidade clara. A economia dos clubes tornou-se refém da prática de jogos de azar. E veja que debatemos a proibição, mas não se debateu a economia saudável e a mídia esportiva entrou no debate superficial e pouco acrescentou nas últimas semanas.
Enquanto se discute a proibição ou a volta das casas de apostas, pouco se fala em reforma estrutural. O debate público fica preso no “sim” ou “não” para os operadores, ignorando a fragilidade dos clubes. Se o governo proíbe, deve garantir que os clubes não quebrem – mas o futebol profissional deveria ser preocupação estatal? E se a solução for apenas deixar os clubes à deriva esperando novas ideias, quem vai pagar as contas no fim do mês?
Qual será o próximo passo: salvar os clubes; salvar a imagem do futebol ou os clubes vão assumir sua responsabilidade e discutir o crescimento financeiro de modo como um adulto responsável fará?
Sobre o autor
Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto. Doutor em Desenvolvimento Regional. Professor pesquisador ligado a Faculdade SENAC Blumenau, editor do podcast, Tecendo Ideias (Top 100 Education Podcasts) e escreve no Substack sobre o futebol catarinense ( https://albiofabianmelchioretto.substack.com/).
https://orcid.org/0000-0001-8631-5270
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